Todos os dias ela acordava com uma única expectativa: passar o dia sem se preocupar em cuidar de ninguém.
Num mundo em que cuidado passou a ser controle, e onde controle sempre haveria de ser ruim, onde a liberdade e a individualidade falavam mais alto, que mais poderia esperar de si mesma a não ser apenas fazer a sua parte nas limitadas horas de seu dia?
As vontades de todos, todas imperiosas. Liberdade. A felicidade constante, a diversão e o prazer o tempo todo à espreita, presentes, fazendo com que sorrir e gozar fossem as únicas coisas interessantes para todos... Que poderia ela, uma mulher semi-reclusa e chegada às dores, esperar do próximo? Cada um cuidando de si e de suas realizações. De fato, não devia esperar nada. Não devia querer fazer nada, além de cuidar de si mesma também, lamber suas feridas e, entre um silêncio e outro, trocar algum carinho e algumas poucas palavras.
Os dias passavam com a sensação de obrigações cumpridas. Ela também realizava. Uma vida aparentemente realizada na superficialidade de tudo.
Aonde estavam todos que pulsavam? Aqueles que sangravam? O mundo havia morrido e só ela não sabia.
(Desenho copiado de http://revistasedah.files.wordpress.com)

Um comentário:
O problema é que nossa suposta sapiência tende a sub-avaliar o que se tem ou (talvez seja pior), exagerar na importância e, se quisermos ser felizes, é inútil proclamar independência emocional ou tornar-se escravo das paixões. Qualquer extremismo nos isola—e, curiosamente, é só dando um pequeno mergulho na solidão que compreendemos o valor do que nos rodeia e mora dentro de nós. Depois de sofrer feito o cão por encarar tudo na base do oito ou oitenta, fiz um pacto comigo mesma: jamais levaria coisa alguma a ferro e fogo porque nada importa tanto. Absolutamente nada é imprescindível. Nem ninguém.
Esse não é um discurso de auto-suficiência, pelo contrário, é uma reflexão de alguém que aprendeu na porrada que só relativizando, tornando a existência e o coração mais leves, é que se pode ser feliz e, então, ser feliz com alguém.
Cuide de quem ama mas não faça disso o objetivo da sua vida porque ficará, inevitavelmente, frustrada quando não tiver deles o que deu pra eles. Ou não tiver deles o que você ACHA que eles deveriam devolver. E será bem feito: você fez o que quis, porque quis, então não venha reclamar o troféu. Não existe prêmio para quem doa amor. Ainda bem.
Por isso, distanciar-se deveria ser uma tarefa cotidiana: evitaria que fôssemos sugados pelo redemoinho que sempre começa logo ali nos nossos pés, mas estamos ocupados demais pra ver. Evitaria que exercêssemos de forma tão eficaz, e perigosamente despercebida, nossos piores defeitos. Quando algo começar a te enlouquecer, infernizar ou surtar, use a técnica dos grandes admiradores de arte: recue diante da tela, mude de ângulo em relação a ela, observe as cores, os traços e os detalhes que, na correria, sempre passam despercebidos. Então notará que ela é muito mais do que aquele ponto preto que ficava, insistente, diante dos seus olhos.
Ser feliz não é questão de sorte ou azar. É questão de perspectiva.
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