sexta-feira, outubro 24, 2008

Estranho



Eu sou estranha!
Meu pensamento é estranho...
Meu paladar é estranho...
Minha pele é estranha...
Meu olhar é estranho...


(ESTRANHO, do Lat. extraneu - adj. 1. Fora do comum; desusado; anormal. 2. Que é de fora; estrangeiro; alheio. 3. Singular; extravagante. 4. Misterioso.
5. Censurável; repreensível; impróprio; livre; isento; arredio; esquivo. 6. Fís. Part. Diz-se de quark de carga elétrica -1/3.)

domingo, outubro 19, 2008



A simplicidade em buscar a felicidade nos torna mais alegres, mais livres, mais soltos.
Não, não é simplicidade de querer menos ou de não desejar muito, não é simplicidade de ser pobre de dinheiro e rico de amor, não é a simplicidade de ter muito dinheiro e comer um “PF” com arroz e fritas no horário de almoço do trabalho.
A simplicidade que questiono (ou da qual falo) é a simplicidade do olhar, a simplicidade do sentir, a simplicidade do escutar, a simplicidade do paladar, de inalar e tocar.
Resumindo, ou esticando, queria expressar a felicidade que me atravessa por eu estar redescobrindo algumas “sensibilidades” (simplicidades!) que a vida nos resolve mostrar em horas oportunas. Redescobrir o valor de um olhar e o que ele nos é capaz de mostrar, faz-nos descobrir a simplicidade do sentir – ou o que nos faz ter ou criar sensações em nosso cérebro referente às coisas que vemos ou simplesmente “sentimos”.
Admirar a beleza, que não necessariamente precisa ser a exterior, vulgarmente chamada “lataria” ;-), mas digo admirar a beleza de um sorriso dado naturalmente, de um sorriso arrancado por quem mais desejava lhe ver sorrir... Admirar o olhar, a maneira de se apresentar, admirar a forma de alguém se expressar...
Isso me faz relembrar a simplicidade que há no sentido da visão.
Escutar é tão natural, é tão óbvio, é tão cotidiano (desculpe-me pela insensibilidade com os surdos - eu sei que escutar não é tão cotidiano assim para muitos!) que nos faz esquecer que sons simples da natureza humana podem ser mais harmônicos que músicas...
Pode parecer lugar comum, mas escutar uma gargalhada, uma palavra, um simples “oi” às vezes é razão suficiente para transformar o dia em mais “melodioso”...
O que mais me impressiona é descobrir que o tom compassado, rápido e curto de passos não faz só lembrar da simplicidade dos detalhes da audição, mas faz dar um sentido – impossível de explicar com simples palavras – para a imaginária visão desses passos estarem se dirigindo a mim.
Alusão aos outros simples “sentidos” da vida... Três deles combinados trazem a supremacia e o mais sublime da simplicidade humana perdida por grande parte das pessoas. Nada pode ser tão mais perfeito que inalar o perfume, ter o paladar único e a sentir a maciez da pele...
Tocar com intensidade não significa bater, não precisa ser pegar com força, não precisa ser com movimentos intensos e nem bruscos. Basta ser um movimento que seja ligeiro com a cabeça, rápido com as mãos, porém de uma proximidade que permite sentir ímpar perfume que a pele do outro emana suavemente.
Aos poucos essa combinação de sentidos traz o que deveríamos ter adotado em todos os dias de nossas vidas: sermos mais simples e justos, mais detalhistas e apurados conosco. Ter os sentidos aguçados pela simplicidade não significa olhar alguém e falar o óbvio... Ou adivinhar o perfume que se usa ao abraçar uma única vez uma pessoa... Simplicidade está em traduzir os diferentes tons de brilho dos olhos como palavras escritas pelo coração... Simplicidade está em sentir a maciez e a sinceridade de um abraço por inteiro... Simplicidade é saber quem se aproxima pela melodia dos passos... Simplicidade é sentir o gosto da pele com um único toque de lábios e saber diferenciá-la de qualquer outra que você já provou...
Com tudo isso vejo que de toda simplicidade humana os cinco sentidos são fundamentais, porém andam tão esquecidos que talvez o melhor mesmo seja encará-los como de uma simplicidade diferencial...
Afinal diferença maior faz quem consegue fazer os sentidos se tornarem simplesmente perfeitos. Tão perfeitos, tão despertos que em alguns momentos nos fazem esquecer de tudo à nossa volta. Tão simples...

sexta-feira, outubro 17, 2008

"Amores são sempre possíveis..."



(roubei a imagem no Google Images... não podia achar nada mais perfeito... porquinho e barbie... teria como ser mais possível?)

segunda-feira, outubro 06, 2008

Só preu não me esquecer



"Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma."

[Eu sei, mas não devia - Marina Colasanti]


É, eu não devia...
Ainda acredito muito que vale a pena não me acostumar...
Mas vou dizer, à que duras penas a gente segue querendo não se acostumar com o que todo mundo se acostuma.
Talvez um dia eu canse, e descanse.

sábado, outubro 04, 2008

Tiro ao álvaro

"De tanto levar frechada do teu olhar
Meu peito até parece, sabe o que?
Táubua de tiro ao álvaro, não tem mais onde furar
Teu olhar mata mais do que bala de carabina
Que veneno estriquinina
Que peixeira de baiano
Teu olhar mata mais
Que atropelamento de automóver
Mata mais que bala de revórver
"

[Adoniran Barbosa e Oswaldo Moles]

Tem umas coisinhas simples assim, que chegam de mansinho, vão crescendo e ocupando espaço.
Pequenas coisas, de tão simples, a gente quase não nota.
Tem as cores das rosas, o cheiro de baunilha. A gente até pensa que não é nada demais.
Mas faz o dia ficar mais claro, o sorriso mais aberto, os olhos mais brilhantes.
E a gente se pega querendo mais, esperando chegar, o coração parando de vez em quando de sobressalto.
São essas coisinhas assim, simplezinhas, que fazem a gente olhar pra trás e lembrar que viveu bem, que se divertiu e que tudo valeu a pena, mesmo quando parecia que nada mais era novidade.