Todos os dias ela acordava com uma única expectativa: passar o dia sem se preocupar em cuidar de ninguém.
Num mundo em que cuidado passou a ser controle, e onde controle sempre haveria de ser ruim, onde a liberdade e a individualidade falavam mais alto, que mais poderia esperar de si mesma a não ser apenas fazer a sua parte nas limitadas horas de seu dia?
As vontades de todos, todas imperiosas. Liberdade. A felicidade constante, a diversão e o prazer o tempo todo à espreita, presentes, fazendo com que sorrir e gozar fossem as únicas coisas interessantes para todos... Que poderia ela, uma mulher semi-reclusa e chegada às dores, esperar do próximo? Cada um cuidando de si e de suas realizações. De fato, não devia esperar nada. Não devia querer fazer nada, além de cuidar de si mesma também, lamber suas feridas e, entre um silêncio e outro, trocar algum carinho e algumas poucas palavras.
Os dias passavam com a sensação de obrigações cumpridas. Ela também realizava. Uma vida aparentemente realizada na superficialidade de tudo.
Aonde estavam todos que pulsavam? Aqueles que sangravam? O mundo havia morrido e só ela não sabia.
(Desenho copiado de http://revistasedah.files.wordpress.com)

